Origens do
Cristianismo
Aspectos histórico-teológicos e sociológicos das primeiras comunidades judaico-cristãs
Objetivos da Linha de Pesquisa
Estudo Interdisciplinar
Examinar o período formativo (30–180 AD) considerando fatores histórico-teológicos, contextuais e sociológicos de forma integrada.
Fontes Primárias
Investigar as origens do Cristianismo por meio de fontes bíblicas e patrísticas, compreendendo seu contexto histórico.
Perspectiva Histórico-Crítica
Aplicar o método histórico-crítico auxiliado pelo olhar sociológico para compreender os textos neotestamentários.
Formação Científica
Desenvolver formação crítica e produção científico-acadêmica, incentivando pesquisa e construção de conhecimento teológico.
Totalidade Histórica
Estudar as sociedades antigas como totalidade complexa e dinâmica, articulando os múltiplos fatores de influência.
Interface Judaica
Contribuir para o conhecimento teológico em sua interface com a cultura judaica, eixo central do grupo.
"O conhecimento dos dados sociológicos que contribuem na compreensão do funcionamento econômico, cultural e religioso do mundo bíblico é indispensável à crítica histórica."Pontifícia Comissão Bíblica, 1993
Organização do Grupo
Atividade de Pesquisa Permanente
O trabalho se organiza em torno de linhas comuns de pesquisa subordinadas ao grupo, com atividade contínua e sistemática.
Técnico do Grupo
Acadêmico de graduação ou pós-graduação responsável por preparar e organizar o trabalho conforme orientação do professor-coordenador.
Relator (Rodízio)
Responsável por anotar as atividades desenvolvidas nas reuniões. O rodízio garante participação ativa de todos os membros.
Divulgação das Pesquisas
O desenvolvimento das pesquisas realizadas deve ser amplamente divulgado. Todos os participantes devem manter currículo na Plataforma Lattes.
Os Oito Subtemas
Sistemas de mediações que articulam a totalidade histórica do nascimento do cristianismo
Subtemas
O horizonte político e social do Império Romano é o quadro estrutural que condiciona toda a emergência cristã. A análise do sistema escravagista revela as tensões econômicas que permeiam a pregação de Paulo e as comunidades domésticas paulinas, bem como a radicalidade da mensagem de igualdade frente a uma sociedade rigidamente estratificada.
O helenismo, como fenômeno cultural de longa duração, não se reduz à "cultura grega": é uma koiné civilizacional que já tinha penetrado profundamente o judaísmo do Segundo Templo antes mesmo de Jesus. Ignorar este dado é um dos maiores pontos cegos da teologia conservadora.
Este subtema é o mais denso do programa e envolve o ambiente religioso competitivo no qual o Cristianismo nascente precisou definir sua identidade. As religiões de mistério (Ísis, Mitra, Dioniso) ofereciam salvação pessoal, iniciação ritual e communitas — elementos que o Cristianismo primitivo também mobilizava de forma própria.
O Gnosticismo funciona aqui como "contraste constitutivo": ao se opor a ele, o proto-ortodoxismo define suas fronteiras cristológicas, canônicas e eclesiológicas. O corpus de Nag Hammadi (especialmente o Apócrifo de João) é fonte primária indispensável — mas exige cautela metodológica quanto à datação e ao contexto de produção.
O culto ao imperador não era meramente político: era uma religião com rituais, sacerdotes e theology implícita. Compreendê-lo ilumina o que o título "Kyrios" (Senhor) significava como reivindicação subversiva quando aplicado a Jesus.
Sem a compreensão do judaísmo do Segundo Templo em toda a sua pluralidade — fariseus, saduceus, essênios, zelotas, movimento de João Batista — não é possível situar adequadamente Jesus nem Paulo. O erro mais comum é tratar "o judaísmo" como bloco monolítico: a evidência de Qumran e dos escritos apócrifos mostra um universo de debates internos intensos.
A queda de Jerusalém em 70 AD é um divisor de águas que reorganiza tanto o judaísmo (em direção ao judaísmo rabínico) quanto o Cristianismo nascente, que precisa redefinir sua relação com a Torah, o Templo e as promessas de Israel sem o referencial territorial e cultual do Templo.
A Jerusalém do século I era uma cidade de tensões agudas: economia do Templo como sistema redistributivo e exploratório, presença romana como ocupação militar, convivência de grupos com projetos de Israel radicalmente distintos. A arqueologia e as fontes de Josefo são cruciais aqui.
A dimensão econômica — frequentemente negligenciada na teologia — é fundamental: a expulsão dos vendilhões do Templo (Mc 11) só faz sentido numa leitura que considere o Templo como instituição econômica central na vida de Jerusalém.
A ideia judaico-cristã do Messias não nasceu no vácuo: ela tem uma genealogia complexa que passa pelas tradições davídicas, pelo apocaliptismo judaico e pelas expectativas de diferentes grupos. Jesus reconfigurou de forma original essa expectativa — o que explica tanto a decepção de alguns seguidores quanto a sua reinterpretação após a Páscoa.
A composição social das primeiras comunidades é um campo de pesquisa vivo: a tese de que os primeiros cristãos eram exclusivamente pobres e miseráveis foi amplamente revisada por Meeks e Theissen, que mostram uma composição mais diversificada, com tensões entre diferentes estratos sociais visíveis nas próprias cartas paulinas (cf. 1Co 11).
A descrição de Atos 2 e 4 sobre a comunidade de bens em Jerusalém levantou o debate sobre o "comunismo primitivo cristão" — termo cunhado por Kautsky. A questão não é anacrônica se utilizada com rigor: trata-se de identificar práticas concretas de redistribuição em comunidades judaico-cristãs, não de projetar categorias modernas sem mediação.
As cristologias evangélicas são diversas e não devem ser harmonizadas artificialmente. O Marcos de um messias sofredor e secreto, o Mateus do novo Moisés, o Lucas do profeta dos pobres, o João do Logos preexistente — cada um responde a contextos comunitários distintos e a perguntas diferentes sobre Jesus.
O papel da mulher no Cristianismo primitivo é mais complexo e diversificado do que a tradição posterior sugere. As evidências textuais (Rm 16, Fp 4, Lc 8) e arqueológicas apontam para lideranças femininas nas comunidades paulinas — uma realidade que as tradições deuteropaulinas (1Tm, Tt) subsequentemente restringiram.
Compreender o status da mulher no mundo greco-romano — com suas variações por região, classe social e contexto jurídico — é condição para não anacronizar nem romantizar a situação das mulheres cristãs do primeiro século.
O período patrístico inaugural (c. 100–180 AD) é marcado pelo processo de diferenciação do Cristianismo em relação ao judaísmo e pela definição de fronteiras internas contra o que será chamado de "heresia". Inácio de Antioquia, Policarpo, Justino Mártir e Ireneu de Lyon são figuras-chave neste processo.
A literatura heresiológica deve ser usada com cautela metodológica rigorosa: Ireneu não é um historiador neutro do Gnosticismo — ele é seu adversário polemista. Usar seus escritos como fonte para o Gnosticismo sem as devidas mediações críticas é um erro metodológico grave.
Metodologia de Pesquisa
Perspectivas e princípios que orientam o trabalho do grupo
Três Perspectivas Integradas
Histórica
Análise das fontes primárias em seu contexto de produção, recepção e transmissão, com atenção ao Sitz im Leben dos textos.
Sociológica
Compreensão das estruturas sociais, econômicas e das dinâmicas de grupo que condicionam a emergência e a vida das comunidades.
Teológica
Identificação dos princípios teológicos que inundam os textos e sua função na construção da identidade comunitária cristã nascente.
"A perspectiva teológica proposta é a histórico-crítica auxiliada pelo olhar sociológico: ambas contribuem na compreensão de certos aspectos histórico-culturais do Cristianismo nascente e dos textos neotestamentários."Ementa do Grupo de Pesquisa — CCDEJ | Drive para membros | Modelo do Projeto de Pesquisa — CCDEJ
Princípios Metodológicos
Pesquisa Orientada por Problema
A investigação deve partir de um problema específico e bem delimitado, não de um tema geral. A pergunta precisa é metodologicamente mais produtiva do que o levantamento temático amplo.
Profundidade com Diálogo
Prefere-se o estudo rigoroso de uma ou duas correntes inter-relacionadas à abordagem superficial de todas as listadas. A síntese integrativa é mais valiosa do que a encyclopédia fragmentada.
Cautela com Fontes Heresiológicas
Fontes como Ireneu de Lyon são polemistas, não historiadores neutros. Seu uso exige dupla mediação: literária (o que o texto diz) e ideológica (por que e como o diz).
Evitar Anacronismo Classificatório
Categorias modernas (religião, seita, ortodoxia, heresia) não existiam como tais no primeiro século. Projetá-las sem mediação crítica distorce a compreensão dos fenômenos antigos.
Sincretismo como Categoria Analítica
O sincretismo é tratado de forma descritiva e analítica, não normativa. O judaísmo do Segundo Templo já era helenizado — a fronteira entre influência judaica e grega é constitutivamente porosa.
Distinção entre Catalisadores e Fontes
Obras especulativas ou jornalísticas podem ser catalisadores legítimos de curiosidade intelectual, mas não são fontes acadêmicas. As perguntas que levantam merecem resposta rigorosa via framework acadêmico.
Cronograma de Estudos
Organização das sessões e distribuição dos subtemas ao longo do período
Sessões do Grupo
01
Apresentação e Fundamentos Metodológicos
Introdução ao grupo, apresentação da ementa, dos objetivos e do referencial teórico-metodológico. Discussão sobre o método histórico-crítico e o olhar sociológico.
02
Subtema 1 — O Império Romano e o Helenismo
Contexto político-social do Império. Sistema escravagista. Cultura romana e helenismo como matriz cultural do período.
03–04
Subtema 2 — Correntes de Pensamento Helenístico
Religiões de mistério. Gnosticismo. Culto ao imperador. Neopitagorismo. Astrologia e magia.
05
Subtema 3 — O Judaísmo no Período Romano
Judeia sob Roma. Partidos judaicos antes de 70 AD. Características do judaísmo helenístico.
06
Subtema 4 — Jerusalém no Tempo de Jesus
Aspectos econômicos, sociais, culturais e políticos. O Templo como instituição central.
07
Subtema 5 — Origens das Comunidades Cristãs
Messianismo judaico-cristão. Reino de Deus. Pobreza e classes sociais no mundo greco-romano.
08
Subtema 6 — Partilha de Bens e Cristologias
Comunismo primitivo das comunidades cristãs. Diversidade cristológica nos quatro Evangelhos.
09
Subtema 7 — A Mulher na Sociedade Greco-Romana
Papel social feminino no mundo antigo e nas comunidades cristãs primitivas. Liderança e restrições.
10
Subtema 8 — Igreja no Período Patrístico
Diferenciação frente ao judaísmo. Padres Apostólicos. Fronteiras identitárias e heresiologia.
11
Síntese e Avaliação Final
Revisão integrada dos subtemas. Apresentação das pesquisas desenvolvidas. Avaliação das atividades e encerramento do ciclo.
Bibliografia do Grupo
Referências bibliográficas selecionadas para o período de estudos